Livro galego com contribuição portuguesa, “Nós, xs inadaptadxs” e “A defunción dos sexos – disidentes sexuais na Galiza contemporánea” são apresentados no festival Queer Lisboa

O livro, coordenado por Daniel Amarelo, da Universidade de Boulder no Colorado, EUA e editado pela editora galega Através foi apresentado por Fernando Cascais do Instituto de comunicação da Universidade Nova de Lisboa, e teve presentes alguns dos autores que contribuiram para o livro, como foi o caso de Carlos Callón, Daniela Ferrández e Daniela Bento. No mesmo evento foi apresentado o livro de Daniela Ferrández “A defunción dos sexos” sobre os dissidentes sexuais na Galiza contemporânea.

Daniel Amarelo explicou que falaria em galego, o português da Galiza, apesar de conhecer bem a variante de Portugal, e prosseguiu falando da génese do livro, com origem já em 2020, levado à concretização com o apoio de um micro-mecenato e que contou com a colaboração de autores em diversas áreas de conhecimento.

Daniela Bento, autora do prólogo, falou do paralelismo que encontrou entre o percurso da comunidade LGBTI e o da própria Galiza, comparando o direito ao corpo, à territorialidade e às fronteiras pessoais e o facto de em muitos casos os indivíduos não terem poder sobre os próprios corpos com a situação da Galiza na qual as suas diretrizes internas são muitas vezes definidas pela vontade externa. Falou ainda em como as desigualdades sociais afetam também aqueles que querem definir-se nas suas identidades e se vêm obstruídos pelas deficientes opções que encontram nos sistemas públicos de saúde, apesar de em Portugal já existir legislação desde 2018, problemas que não se colocam a quem tem melhores condições económicas. Abordou também a sua relação de cinco anos com a Galiza, e um novo mundo que encontrou a norte do Minho.

Daniel Amarelo expressou ainda a crença de que a Galiza pode contribuir para o diálogo e fazer sinergias com Portugal, também nas temáticas queer, e citou exemplos galegos como as Tanxugueiras, Mercedes Péon ou até a festa galega queer promovida pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Exortou a que o rio Minho não seja uma fronteira e mencionou realidades para além das culturais e linguísticas que aproximam Portugal e a Galiza

Carlos Callón falou da sua experiência pessoal e de como após ter “saído do armário” se propôs a fazer algo em relação à situação queer na Galiza, e a manifestação disso foi os seus trabalhos académicos abordarem essa temática.
Estudou os temas queer na literatura popular galega, e explicou a razão do estudo ser na literatura popular: a repressão de séculos sobre a língua galega havia provocado um vazio de literatura culta. Contou como a maioria das poesias de temática lésbica medievais são de origem galego-portuguesa e leu três contos ilustrativos de como a literatura popular registava estas formas de ser.

O moderador Fernando Cascais introduziu o tema da língua para questionar o uso de terminologias anglo-saxónicas ou castelhanas quando existe léxico galego-português para exprimir esses significados. Falou da dificuldade de se lutar contra duas línguas hegemónicas(inglês e castelhano) que sendo línguas de emancipação mascaram e apagam contudo as realidades nacionais.

Para falar do livro “Nós, xs inadaptadxs” em mais detalhe foi passada a palavra a Daniel Amarelo, coordenador da obra, que explicou a génese do livro e as suas divisões temáticas. Abordou também a tradição literária galega, sem esquecer a marca que esta carrega do auto-ódio e definiu a teoria queer como a que é contra as categorias binárias do Sim e do Não. Caracterizou também a literatura galega como sendo inerentemente queer, por se encontrar numa fronteira indefinida entre o pertenceer ou não pertencer uma língua de identidade própria.

Daniel Amarelo expressou ainda a crença de que a Galiza pode contribuir para o diálogo e fazer sinergias com Portugal, também nas temáticas queer, e citou exemplos galegos como as Tanxugueiras, Mercedes Péon ou até a festa galega queer promovida pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Exortou a que o rio Minho não seja uma fronteira e mencionou realidades para além das culturais e linguísticas que aproximam Portugal e a Galiza, como o facto de terem emergido de ditaduras longas e duras, serem países de emigração e de terem um importante contexto rural, no que será importante lutar para que a cidade não seja o único espaço queer. Na sua visão Portugal e a Galiza devem abandonar o seu posicionamento semi-periférico e unir forças.

Para apresentar o livro “A defunción dos sexos” falou a autora Daniela Ferrández, sendo interpelada pelo moderador Fernando Cascais com uma pequena provocação, manifestado a sua surpresa pelo surgimento deste levantamento da cultura queer na Galiza nos últimos 150 anos sendo a Galiza conhecida pelo lugar de Espanha onde nada se passa.

Daniela Ferrández descreveu como o livro se divide em três épocas, uma que cobre os fins do século XIX e início do século XX até ao golpe de estado de 1936, uma segunda que cobre a ditadura franquista e outra que cobre o período de democracia. O caso do primeiro casal lésbico na Galiza, Elisa e Marcela, que tendo casado em 1901 e um dos elementos do casal ter assumido o papel masculino, acabaram por ser descobertos tendo de fugir para Portugal e depois para a América Latina foi contado por Daniela. Alguns aspectos do livro foram abordados, como a dificuldade de aplicar terminologia numa época em que as designações modernas ainda não existiam. Foi ainda explicado que o período democrático não trouxe apenas a primeira manifestação de liberdade sexual, mas também conviveu com prisões como as de dois marinheiros de Ferrol em 1979 cujo caso só se encerrou em 1981.

No período de questões o moderador perguntou aos autores sobre a recepção dos seus trabalhos no restante estado espanhol. Carlos Callón referiu como apesar de ter um livro premiado na Galiza e ter procurado uma livraria madrilena conhecida pela promoção dos temas queer, acabou por não conseguir apresentar o livro com a justificação de que não apresentavam livros em galego. Daniela Ferrández descreveu também como perto de nula a repercussão do seu trabalho fora da Galiza. Aventou-se que pode ser Portugal o lugar onde esses trabalhos possam ser também lidos e discutidos, e como esta recepção dos mesmos no Festival Queer Lisboa foi em si um sinal dessa abertura.

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